Carcará Maldito ® (H): 03 - O Último (Parte 2 - Final)

03 - O Último (Parte 2 - Final)


“Os humanos são realmente muito estranhos” pensou Sighul enquanto olhava atentamente aquele homem sentado em frente à pequena construção de madeira. Fazia muito tempo que ele estava lá. Sighul sabia disso pois tinha observado o homem todo esse tempo. Notou sua presença quando ele se aproximou da grande construção de pedra. Não demorou muito lá dentro, saiu logo depois andando estranho e voltou para a construção com dois potes de madeira cheios de água. Fez isso mais duas vezes e a fumaça preta que saía de trás da construção ficou branca e desapareceu. Quando saiu novamente levava na mão um galho e se apoiava nele, deixando seu andar ainda mais estranho. Entrou em seguida na construção de madeira em frente à Sighul e logo saiu emitindo sons estranhos e com água no rosto. O homem passou pela comida que estava em frente à entrada da construção e a arrastou para longe, o que incomodou Sighul. Desde então ele estava sentado no chão sob o sol forte e olhava para o leste. E não havia nada para se olhar naquela direção pois Sighul havia procurado. E se Sighul não via era porque não tinha nada mesmo.
Avaliando seu organismo ele viu que ainda não estava com fome, mas o sol incomodava e ele era muito mais resistente ao calor que o homem, e este ainda não se movia. Sighul sabia que os homens não eram confiáveis, mas quando viu o estranho humano se jogar no chão emitindo sons altos e olhando diretamente para o Grande Sol sem fechar os olhos, ele soube que não havia perigo. O calor havia deixado o homem doente, Sighul já tinha visto isso acontecer algumas vezes.
O incomodo demorou pouco, depois o homem caiu com a cara no chão e de olhos fechados.
Sighul voltou a suas preocupações e depois de um grande tempo o homem levantou-se rápido, o que novamente assustou Sighul. O estranho homem andou passando por Sighul sem olhar-lo e foi mais a frente onde havia um homem caído no chão. Esse outro respirava com dificuldade e havia carne saindo de seu meio. O primeiro homem começou a emitir sons estranhos que Sighul achou incômodos.
“Ocê ta com as tripas pra fora e vai morrer, mas vai demorar ainda umas horas sofrendo. Se me contar quem mandou ocêis eu acabo com isso.”
Cansado dos sons estranhos Sighul voltou a olhar para a comida espalhada pelo chão e tentou tirar os homens da cabeça. Mas não deu. De repente Sighul ouviu um forte e feio som. Um som que sempre que ouvia significava perigo e dessa vez ele chegou a sair de seu lugar devido ao susto e ao medo. Mas voltou rapidamente. Com tanta comida por ali ele não queria correr o risco de perder uma boa refeição.
O homem voltou e entrou na construção de madeira. Quando saiu tinha um saco nas costas e atrás dele a construção começou a arder em perigosas chamas. Sighul moveu-se incomodado com o fogo e percebeu então que o homem olhava diretamente para ele. Retribuiu o olhar com toda sua coragem pensando que realmente não teria paz nesse dia. O homem se aproximou com aquela coisa estranha na cabeça, mas nada fez, apenas olhou para ele e com uma estranha forma na boca, com os cantos levantados para cima. Sighul tomou ar e falou para ele ir embora e soube que foi compreendido quando o homem deu as costas para ele e partiu se apoiando no galho com seu andar estranho. Acompanhou com olhos por muito tempo e depois levantou o olhar para o céu e viu os “negros” rondando. E Sighul, que mesmo sem muita fome, resolveu comer antes que eles descessem e acabassem com toda comida.
Assim o grande carcará abriu suas asas de quase um metro cada e saiu do galho onde estava há horas. Tomou altura e passou perigosamente perto dos urubus que sobrevoavam a fazenda. Pousou sobre o corpo do homem que estava caído um pouco a frente da casa em chamas que um dia foi o lar de José de Arimatéia e sua família. E começou comer.

José olhou pela janela do quarto e viu o bando se aproximar.
- É melhor ocê se vestir e descer. - Disse para Priscila que ainda estava assustada com o olhar de José
- Por que...
- Vá - interrompeu José secamente.
Priscila se vestiu e quando guardava a medalhinha José segurou seu braço e a pediu de volta.
- Mas ocê disse que era um presente... - protestou a garota.
- E é. Mas não pra ocê. Esse já tem dono! - respondeu empurrando delicadamente Priscila para fora do quarto.
Foi ao espelho onde com dois movimentos hábeis terminou de barbear-se, molhou o rosto e começou a se vestir. Estava calçando as botas quando ouviu o barulho de vozes vindo da rua. Olhou novamente pela janela e viu o homem conhecido como “Zé Galo”.
O homem que um dia liderou um bando durante um ataque a uma fazenda no interior do Ceará. Ele chegava à frente de seus homens montados em jegues cansados. A grande cicatriz no rosto foi uma marca deixada pelo Carcará no ultimo encontro há mais de três anos. Desde então o homem havia tomado precauções. Juntou um bando maior e nunca ficava sozinho. A não ser quando ia se deitar com uma mulher.
José fechou os olhos com força e lembrou-se da garrafa de cerveja quebrada rasgando a carne do rosto de Zé Galo. Logo depois dois de seus homens seguraram José, que quando conseguiu se livrar deles já era tarde. Ele havia fugido e desde então se escondia em todos os lugares com medo da vingança do Carcará Maldito.
-Hoje é teu dia! - resmungou para o vidro embaçado da janela.

Haviam seis quartos na parte de coma do estabelecimento da Dona Eva. Eram os melhores da casa, mas o numero nove era o principal. Com banheiro dentro e cama grande.
José secou a faca na calça e saiu do quarto silenciosamente. Entrou no quarto nove e foi até o banheiro. Sentou na tampa da latrina e ficou esperando. Conhecia bem seu inimigo e sabia que era um homem de gostos extravagantes. A maior parte do dinheiro que ganhava roubando e matando ele gastava com mulheres.
Dessa vez não foi diferente. Depois de muita barulheira José ouviu a voz de Zé Galo subindo a escada. Ele falava obscenidades para a mulher que o acompanhava e José sabia que era Priscila. A mais bonita no melhor quarto.
A porta abriu e ele ouviu os grunhidos de Zé Galo ficarem mais altos. José se levantou e encostou as costas na parede do banheiro escuro. Não sabia quanto tempo ia levar, mas estava disposto a ficar o tempo que fosse. Mas Zé Galo foi rápido, não passou dez minutos e José ouviu ele gemer de prazer. Logo depois o som dos passos dele se aproximaram do banheiro. As mãos de José apertaram a faca e ele prendeu a respiração. Zé Galo entrou e começou a urinar, foi quando sentiu a faca na garganta e a mão grande tapando sua boca. Estava urinando no chão quando sentiu o bafo quente na orelha e a voz rouca dizer:
- To aqui pra acabar com a sua vida e a ultima coisa que ocê vai ouvir é meu nome, cabra safado!
José começou a apertar a faca enquanto puxava ela pra direita lentamente. Fios de sangue começaram a surgir quando os vasos capilares se romperam.
- José de Arimatéia! - disse o Carcará puxando rápido a faca e cortando fundo o pescoço de Zé Galo.
Soltou o corpo inerte de Zé Galo que morreu no chão molhado de sua própria urina.
José saiu do banheiro para falar com Priscila quando viu que as coisas tinham complicado.
Não era Priscila que estava sentada na cama. A mulher assustou-se com José e levantou num pulo.
- Cadê a Priscila? - perguntou José já pensando no que iria fazer.
- Ela ta na cozinha e...
Nesse momento ela se deu conta da faca, pingando sangue, na mão de José e viu os pés de Zé Galo pela fresta da porta do banheiro.
José viu o olhar vidrado de desespero e pensou em controlar a situação. Mas quando viu a boca da mulher abrir, ele soube que era tarde. O grito estridente soou como um alarme e José não perdeu tempo. Saiu mancando, entrou em seu quarto e pegou uma grande bolsa de couro que estava em cima da cama. Saiu do quarto e parou de frente para a escada, encostado na janela no fim do corredor. José colocou a bolsa entre as pernas, sacou seus dois 38 Smith & Welson e esperou a onda de homens que iam subir.
Não foi uma disputa justa. Eles subiam correndo em fila, segurando as calças com uma mão e suas armas com a outra. Enquanto José disparava despreocupadamente e ia acertando cabeças e peitos. Ele tinha contado quatorze homens no bando e não podia desperdiçar muitas balas com cada um, mas sempre tinha aquele que mesmo com o coração parando de funcionar, avançava loucamente. Esses só eram derrubados quando a bala entrava pelo pescoço e acertava a medula. Eles perdiam o controle do corpo e caiam agonizando.
José acertava com perícia e experiência de quem manuseia armas desde os dez anos de idade e por isso conseguiu matar o maior numero de homens usando as balas que estavam no tambor de suas armas. Mas depois de um tempo as pistolas de José ficaram sem munição e ainda faltavam metade do bando para derrubar. Os últimos viram o que aconteceu com os mais afoitos que subiram a escada as loucas e decidiram ficar em baixo, atirando sem se expor. Agora vinha a parte difícil. José Jogou as duas pistolas no chão e tirou de dentro da bolsa a espingarda de cartucho calibre 12. Ele avançou até a beirada da escada equilibrando-se sobre os corpos e antes dar o primeiro tiro ele sentiu a primeira bala. Ela atingiu seu ombro rasgando profundamente a carne. José deu um passo para trás gemendo de dor quando as outras duas o acertaram quase ao mesmo tempo. Uma raspou um pouco acima da orelha esquerda deixando um cheiro de cabelo queimado no ar. E a segunda deixou um corte pouco acima da bacia direita. Nesse momento um estrondo fez se ouvir. O silencio que o precedeu foi quase uma benção e logo em seguida os gemidos moribundos de dois homens surgiram no ar. José puxou o gatilho da grande arma novamente. E mais uma vez a pólvora explodiu, a pressão rompeu o frágil papelão que segurava as milhares de bolinhas de chumbo e uma chuva de morte caiu sobre os homens abaixo. Diante desse inferno o restante do bando desesperou-se e tentou fugir. Apenas para serem mortos antes de tocarem no trinco da porta.
Quando a arma sem balas estalou nas mãos de José, um zumbido apitava nos ouvidos das garotas encolhidas no canto atrás do balcão. Por seis vazes elas ouviram o som dos disparos saindo pelo cano serrado, ficando ainda mais alto naquele ambiente fechado . Um fumaça azulada pairava no teto quando José voltou para trás e pegou suas armas. Ele as recerregou e voltou atirando nos que ainda tinham vida. Logo depois entrou no quarto, pegou seu chapéu e bengala e com o saco de couro nas costas desceu as escadas manqueteando.
Olhou para Priscila branca como nuvem em dia quente e se aproximou. As outras garotas puseram-se atrás dela como se ela, por ter se deitado com ele, pudesse protegê-las.
-Pensei que ele fosse escolher ocê - disse José procurando algo nos bolsos. - Se fosse, eu nem ia precisar matar todos, mas...
Terminou a frase deixando no ar a fatalidade do que havia acabado de fazer.
Tirou uma nota alta do bolso e entregou a Priscila que tratou de escorrega-la para dentro do vestido no espaço entre os seios. Enquanto Dona Eva atônita assistia a tudo pensando no prejuízo que tinha, Priscila já estava atrás do balcão pegando sua bolsa e murmurando "Já chega" repetidas vazes. Cansada dessa vida ingrata de prostituta Priscila decidiu voltar a ser Zenaide. Tinha dinheiro guardado e já era hora de voltar para sua cidade natal. As outras garotas olhavam José sair pela porta e seu passo coxo pôde ser ouvido até chegar ao curral atrás da casa onde estava seu burro.

A cidade ficou famosa por esse tiroteio e até hoje existe o estabelecimento que foi da Dona Eva. Com a mesma escada e com as marcas de bala espalhada pelas paredes. Se você perguntar para algum morador, vai descobrir que não foram pouco mais de dez homens que o Carcará matou naquele dia. Foram cinqüenta, sessenta e em algumas versões, mais de cem. Ao lado da entrada tem uma placa com a inscrição:
"Aqui José de Arimatéia, conhecido como Carcará Maldito, matou o cangaceiro Zé Galo e seu bando."
E todo dia 16 de abril, a cidade relembra esse dia com fogueira, danças e apresentações. Nessas apresentações teatrais o Carcará sempre é interpretado por um boneco de quase três metros com olhos vermelhos e chapéu de abas largas.

O filho mais novo estava dançando com a esposa enquanto ela ficava com a neta adolescente sentada na mesa olhando a apresentação. Surgiram mais de duzentos homens vestidos de cangaceiros e após uma curta troca de frases decoradas o boneco sacou duas grande armas da cintura. Ela olhava a tudo com uma estranha irritação enquanto o boneco atirava e todos os homens caiam no chão.
Com a ajuda da neta ela se levantou e foi caminhando em direção a pequena pousada. Sua inquieta neta acompanhava seu vagaroso passo e perguntou:
- Tudo bem vó?
- Tudo, minha neta. – respondeu a velha. - Só que essas histórias antigas cansam um pouco sua vó.
E sorrindo Zenaide entrou na pousada.

FIM
Valhalla Produções. Todos os direitos reservados. Madrid, 7 de Maio de 2006.

Veja
aqui a capa desta edição, feita pelo grande Carlos Rafael do Rio de Janeiro.
Deixe seu comentário e obrigado a todos.

Até a próxima!!!

Daniel Garcia
16/05/06
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10:29 PM
Comments:
Bão...Bão mesmo...o homi é fogo no zóio!
 
só por curiosidade...
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carcar%C3%A1
 
Muito bom Alemão...

A "Doze" de cano serrado não poderia faltar na estória... pena que não sei desenhar, pois já tenho a imagem perfeita do Carcará dando uma "punhetada" nela depois de um tiro... hehehe...
As outras estórias do blog tbém são do Carcará?
 
Cara, muito bom... você conduziu muito bem a história, dialogos certeiros, tensão, muito bom mesmo... dava pra sentir o desesperos dos capangas na hora... Nani, me faz um rascunho da sua idéia, pode ser bem tosco mesmo que eu dou uma lapidada...
 
Demais cara....
Tá ficando cada vez melhor!!!!
Não demora pra postar a próxima!!!!
 
Daquele jeito, o José de Arimatéia já está naquele panteão junto com o Jack Bauer, Dirty Harry, John Matrix, Stallone Cobra, Jonh MacLane... Mais legal do que a história em si, é como ela é contada.
 
Veio, ficou mto bom novamente...
quer dizer, o texto já ficou melhor do que na vez anterior... mas ainda acho que deve ter mais luta corporal...

Parabéns novamente mano!
 
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