Carcará Maldito ® (H): 12/06/2006

02 - O Último (Parte 1)


Priscila era nome de guerra, o de batismo era Zenaide mesmo. Filha mais nova de doze que a Dona Silvia criou ela sempre foi muito bonita e por isso chegava a amedrontar os homens. Eles iam se casando com as outras e ela ia ficando para trás. A vida no sertão é muito dura pra mulher solteira e quando chegou aos dezesseis ela teve que sair de casa com pouco dinheiro e quase sem esperança. O trem a deixou numa pequena cidade a caminho da capital e ali Zenaide ficou. Foi tragada pela cidade e nunca mais conseguiu sair. Sem dinheiro e perspectiva ela acabou sendo ajudada pela Dona Eva, a dona do puteiro, que contratou ela pra fazer faxina no estabelecimento. Depois de um tempo vendo as garotas ganharem em uma noite o que ela recebia em um mês, a garota decidiu mudar de vida. E assim Zenaide virou Priscila.

Com trinta e quatro anos Priscila sabia fazer um homem feliz. Em sua cabeça era uma fórmula simples. Fazê-los falar de suas aventuras e atos de bravura enquanto ela se fazia de encantada e impressionada. Depois dizia que nunca havia conhecido alguém como eles e só então partia para a parte difícil. Elogiava o tamanho de seus membros e fazia carícias pelo corpo do homem deixando-os completamente loucos. Assim a coisa terminava mais rápida e ela tinha os clientes mais satisfeitos da casa. Naquele dia ela passava o dedo na cicatriz da perna direita do homem. Era uma grande marca que descia da parte de baixo da coxa e ia até a metade da canela, alargando-se no joelho torto. Estavam no quarto sete, logo acima do salão e podiam ouvir a sanfona chorando abaixo. O homem estava nu enrolado no lençol áspero com seus olhos quase brancos fixos no teto. O corpo esculpido pelo trabalho era grande e largo, com músculos rijos e pele repleta de cicatrizes. O tal José de Arimatéia tinha pago pela noite toda com ela, o que não era algo comum. Ele não era de falar muito e tinha dito apenas que estava na cidade a negócios. O sexo foi bom e tranqüilo, ele não era sujo nem pervertido e nessa profissão as garotas aprendem a dar valor a essas pequenas qualidades.
Mas Priscila ainda não sabia que esse seria seu último cliente.
Com a cabeça no peito dele, ela perguntou:
- Essa na perna foi o que?
Ele respirou fundo e respondeu baixo.
- Caí dum cavalo.
- Ocê teve um cavalo? – questionou Priscila atônita.
- Tive – foi a resposta curta e seca de José pondo fim na conversa. Mas não deu pra interromper tão fácil a onda de lembranças que veio junto.

Era inverno no sertão, o que significa um calor horrível durante o dia e uma brisa quente à noite. As escassas chuvas traziam um pouco de verde à paisagem pálida, um arbusto aqui, um mato ali, nada de muito espantoso, mas o cheiro de mato era agradável naquela manhã. O barulho seco das ferraduras do cavalo batendo no chão eram os únicos sons que acompanhavam José. O sol ainda estava baixo no horizonte quando ele chegou à venda do Seu Augusto. Parou seu cavalo na porta e saudou com um rotineiro “diaaa” os dois velhos sentados na casa ao lado. Depois de amarrar Trovoada no pequeno poste em frente à venda ele entrou batendo as botas no chão pra tirar o pó de estrada das calças. Depois de pendurar o grande e esquisito chapéu no gancho da parede ele apoiou os cotovelos no balcão e cumprimentou Seu Augusto.
- Me dá cinco garrafas de Antártica e um poco de fumo – pediu José para o velho atrás do balcão.
- Que conta de novo José? – perguntou Seu Augusto enquanto pegava as garrafas em baixo do balcão.
- Nada não. O dotô veio ver o coronér e ele esqueceu de mandar comprar cerveja ontem. Como o dotô num bebe pinga e vai armoçá lá, eu vim rapidinho.
- O coronér ta melhor?
- Na mesma. Acho que o problema de pulmão dele nem é tão grave, ele paga o dotô pra vim da capital uma vez por semana só pra ouvir os causos dele.
- Bom de prosa esse dotô né. – comentou o velho enquanto cortava um pedaço do rolo de fumo.
José tirou do bolso o dinheiro amassado que seu patrão lhe deu e entregou ao Seu Augusto, que o fez sumir, de forma quase mágica, dentro de seu colete. O pião subiu no cavalo, despediu-se de todos com um puxão no chapéu e seguiu estrada acima na direção da Fazenda Santo Horácio. José puxou o trote em Trovoada para apressar a chegada na fazenda. Enquanto enrolava um cigarro e escutava o barulho das garrafas batendo no saco pendurado no lombo do cavalo ele sorria pensando nas historias do doutor. Cada uma mais estranha e engraçada que a outra. Seu patrão adorava ouvi-lo e não era o único. Todos na fazenda se reuniam no salão quando o médico chegava e ficavam ouvindo suas historias e rindo enquanto bebericavam a pinga do grande tonel. O médico era um, velho conhecido seu, foi amigo de seu pai e cuidou dele antes da morte por câncer. José praticamente crescera ouvindo as histórias do doutor e por incrível que pareça não se lembrava dele ter repetido alguma. Como ele fazia isso? Esse era um mistério que ninguém podia responder.
Apressou o passo para não perder muito das historias e percebeu algo estranho. A porteira da fazenda estava aberta e ele lembrava de tê-la fechado quando saiu. Nessa hora todos deviam estar no salão com o doutor. Não deu tempo de pensar muito. Quase cem homens montados em jegues e uns três a cavalo saíram a galope pelo portão e viraram a esquerda. José sentiu o cheiro de morte e só então reparou na fumaça preta que subia da casa grande. Com o coração batendo no pescoço ele disparou pela trilha sacando seus dois 32 e mirando nos últimos homens da fileira. Atirando ele foi atrás do bando e não sabe quantos acertou, mas dois deles caíram no chão antes da chuva de bala cair sobre ele. Três balas de carabina acertaram o peito de Trovoada que empinou e caiu em cima da perna direita de José, moendo parte da rótula e rompendo os ligamentos. Arrastou-se de baixo do cavalo moribundo rangendo os dentes e recarregou suas armas. Levantando-se sem dar conta da dor, ele saiu correndo atrás do bando, atirando como um louco. Alguns metros depois seu organismo percebeu que não tinha mais um sistema de articulação na perna e ele despencou. Ralou os braços e o rosto, mas ainda não sentia dor. Levantou a cabeça e viu quatro homens vindo em sua direção. Rolou de barriga para cima e olhou o tambor das duas armas. Duas balas era tudo que ele tinha e o som dos jegues já estava próximo demais. Relaxou os braços deixando-os no chão enquanto respirava rapidamente. Pelo barulho dos cascos e o ranger das selas ele soube que estavam próximos demais. Virou de bruços e segurando com as duas mãos a única arma com balas ele disparou dois tiros rápidos no que vinha a frente. Um acertou a barriga e o outro entrou pelo queixo arrancando a parte inferior da mandíbula do homem. Sem controle o jegue passou perigosamente ao lado de José e deixou cair da cela o moribundo homem. Sem pensar muito José deu as costas para o resto dos atacantes, puxou o corpo do homem e pegou as armas de sua cintura. Não tinha tempo de se virar, por isso levantou os dois revolveres na altura da orelha, apontados para trás e disparou as cegas. Ele acertou dois deles e o cavalo de outro. Era uma simples questão de proporção. Mesmo de costas ele sabia que os homens estavam perigosamente perto e como eram três, as chances de acertar no mínimo um, eram bem grandes. Ele só não contava com acertar os três. Virou-se ainda com uma bala no tambor atirou no que tentava se levantar. Os outros gemiam enquanto buscavam suas armas. José olhou para frente e viu que mais três ou quatro do bando começavam a voltar quando escutou um grito e eles deram as costas partindo em disparada com o resto do bando. Com um pouco mais de tempo ele recarregou suas armas e levantou. Dois dos homens que ele atingiu estavam a beira da morte e o outro tentava chegar à arma. Esse ele acertou na altura do pescoço e atrás da orelha, os outros ele deixou para sofrer. Olhou então para o casarão e viu que a cozinha parecia estar pegando fogo e um silêncio estranho enchia o ar. Não havia gritos, choro nem correria. Quando se deu conta disso José sentiu um bolo no estomago e vomitou o café com tapioca que havia comido antes de sair de casa. Procurou ver a pequena casa que dividia com a mulher e a filha, mas ficava atrás do curral e era impossível de ver a essa distância. Cambaleando ele se dirigiu ao casarão já com lágrimas descendo deixando uma trilha limpa no rosto empoeirado. Lagrimas que durariam o resto dia e secariam o corpo do homem, que desse dia em diante nunca mais chorou.

José usou o único jeito que conhecia para afastar essas lembranças.
- Vem cá e me deixa dá um cheiro nesse cangote! – disse José sem muita convicção e puxando Priscila para perto do corpo.

O suor no espaço entre os seios de Priscila brilhava com a luz do sol que entrava pela janela. Ela acordou e ficou piscando até se acostumar com a luz forte. Quando olhou para o lado viu José ao lado da cama, nu com uma enorme faca na mão. A cena despertou-a por completo e depois ela entendeu. Ele estava de frente para o espelho com um balde de água no chão entre as pernas e espuma de sabão no rosto. Priscila se sentou na cama e uma coisa brilhante no chão chamou sua atenção. Ela abaixou e pegou uma medalhinha que tinha caído da calça de algodão grosso de José.
- O que é essa medalhinha? - Perguntou ela com voz ainda grossa.
José se virou e olhou fixamente para a peça nas mãos da garota e respondeu olhando novamente para o espelho.
- É um presente.
Priscila sorriu lisonjeada pelo agrado e continuou.
- O que é isso desenhado nela. É um carcará?
A faca mergulhou no balde soltou a espuma branca com pelos escuros. José levantou a faca e apertou seu cabo com força até os nós dos dedos ficarem brancos.
Olhou para Priscila e as imagens do pássaro pousado na arvore ressecada na frente da sua antiga casa voltaram a sua cabeça.
Andava calmamente na direção dela ainda com metade da barba por fazer e a faca levantada enquanto se lembrava do fim daquele fatídico dia.

Continua...

Valhalla Produções. Todos os direitos reservados. Madrid, 7 de Maio de 2006.

A primeira capa de verdade fica por conta de meu grande amigo e talentoso desenhista Júlio Brilha.
Com um lápis correto e solto de uma qualidade indiscutivél que você pode conferir clicando AQUI

Agradeço a todos e até a próxima!!!

Daniel Garcia

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3:29 PM  0 Comentários

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