05 - Espírito Santo, Amém (Parte 2)
-...Não tem ninguém pra cuidar?
José respirou fundo e levantou Antônio pelo pescoço até a altura de seu rosto. Podia sentir o hálito podre do padre que tinha os pés a mais de trinta centímetros do chão. O padre Bento não ouviu o que o Carcará disse, mas Antônio parou de chorar e abriu tanto os olhos que eles quase saltaram.
- Ocê vai viver pra cuidar direito dessas crianças. – Sussurrou José. – Pois eu vou voltar pra conferir e se elas num tiverem feliz. É bom ocê ta com suas contas acertadas com Deus.
E José apertou as mãos na garganta do padre Antônio. Respirar já era muito difícil para ela, pois as duas costelas quebradas estavam perfurando o pulmão. Mas quando o Carcará fechou com as mãos fortes sua traquéia, tudo que ele queria era um bom fluxo de ar puro, mesmo com a dor que sentia.
- Você vai matar ele! Não... – exclamava o padre Bento de joelhos.
O ar que não chegava ao cérebro começou a fazer falta e pontos brilhantes surgiram na visão de Antônio antes dele perder a consciência e cair desmaiado.
José soltou o corpo inerte que caiu em frente às escadas do altar e olhou para Bento.
- Você matou ele? Você matou ele? – O padre Bento correu e pegou a cabeça de Antônio nas mãos.
José cansado sentou na terceira fileira de bancos e tirou o chapéu colocando-o ao seu lado.
- Ele ta desmaiado. Vai acorda todo dolorido, mas ta vivo ainda.
- Deus Nosso Senhor! Você agiu certo, meu filho.
- Num matei ele porque não é atrás dele que eu tô. Bento Porteiro!
O padre Bento pousou a cabeça de Antônio no chão e levantou vagarosamente. O sangue tinha deixado sua face e os lábios brancos começaram a tremer.
- Então é você? – Perguntou olhando direto para José que nem precisou responder. – Eu achei que lhe conhecia, mas... faz tanto tempo.
O padre olhou para a porta aberta que levava ao fundo da igreja e antes de se mover o Carcará pareceu ler sua mente.
- Não!
Foi a voz séria, rouca e decidida que acabou com as esperanças do padre. Ele caminhou até os grandes bancos e sentou-se de costas na frente de José. Não queria de forma alguma ter que enfrentar aqueles duros olhos quase brancos. Levantou a cabeça e passou os olhos pela igreja sentindo um aperto no coração e um frio no estomago. Um frio que todos sentem quando estão perto da morte.
- As crianças... – Disse o padre e abaixou a cabeça. – Não é justo, eu...
- Justo? – Perguntou José antes que ele terminasse. – Ocê conhecia minha mulher. Brincava com minha filha... Ainda tem coragem de falar em justiça?
O Carcará piscava rapidamente para evitar as lágrimas que estavam guardadas há tanto tempo. Aquele homem que tinha sido seu amigo, padrinho de batismo de sua filha e depois... O havia traído.
- Você ta diferente. Eu soube que você tinha voltado de minas e esperei por você muitos dias. – A voz do padre Bento saía fraca enquanto ele abria a gola da batina. – Depois veio os boatos de que tinha um homem se vingando lá no sertão. Um tal de Carcará Maldito...
O brilho metálico de uma medalhinha de metal caindo no banco ao lado do padre fez ele para de falar. Ele a pegou na mão e olhou com atenção a figura do carcará em relevo antes de fechar fortemente o punho em volta dela.
- É... Então eu soube que era você e que minha hora tava chegando. – continuou o padre.
Não ousava olhar para trás e encarar seu matador que agora segurava uma fina corda enrolada nos punhos.
- Sou o último?
- Ainda não. Mas faltam poucos. A maioria morreu sozinha. Cangaceiro tem vida curta. Mas do resto cuidei eu. Um por um.
Bento abaixou a cabeça e não conteve as lágrimas. O medo era insuportável e aceitar a morte calmamente é muito para qualquer ser humano.
- Ah, José... Não tem um dia que eu não me arrependo do que fiz...
- Ocê vendeu a vida da minha família e de todos seus amigos. Foi ocê que falou pra eles a melhor hora pra atacar. Foi ocê que abriu a droga do portão! – José sentia toda raiva correndo pelo seu corpo e falava rapido. – Ocê podia ter avisado minha mulher... Não! Seu arrependimento não vai apagar o vazio que tem dentro de mim!
- Eu virei padre pela dor na consciência. - Disse o padre quase se virando. - Minha morte não vai apagar esse vazio. Você vai condenar sua alma por isso?
José levantou antes de responder.
- Minha alma já esta condenada. Sua morte realmente não vai apagar nada. Não é por mim, Bento. É por elas!
Bento sentiu a corda parando em seu pescoço e não conseguiu evitar o susto. O Carcará continuou falando.
- É o mínimo que eu posso fazer por elas... Pode fazer sua ultima reza.
Foi só um Pai Nosso. E antes de terminar, Bento sentiu a corda apertando no pescoço. Suas ultimas palavras foram:
- ...Espírito Santo, Amém.
E morreu sufocado no banco da igreja segurando a medalhinha nas mãos.
José sabia que não tinha mais tempo, pois os políciais entrariam a qualquer momento e agiu depressa. Arrastou Bento pela perna até o quarto do padre Antônio, deitou na cama desarrumada e tirou sua batina. Não demorou muito pra achar a caixa com todo dinheiro roubado da caixa de doações. Estava na segunda gaveta bem no fundo. Amassou o chapéu enfiando ele na camisa e depois colocou a bengala dentro da calça ao lado da perna. Por fim vestiu a batina e pegou a garrafa de vinho barato que estava em cima da penteadeira. Segurou-a pelo gargalo e fechou os olhos e chocou ela contra a testa. Sentiu o sangue misturado com vinho escorrer e sem dar atenção para a pequena dor, saiu mancando rapidamente para o corredor da igreja. Assim que deitou no chão e fechou os olhos ouviu o estrondo da porta sendo arrombada. Sua maior dificuldade era disfarçar a respiração, ofegante pela tensão e pelo cansaço. Escutou o capitão Ricardo entrar gritando suas ordens antes de ser carregado para fora da igreja. Sem ousar abrir os olhos José foi levantado e deitado numa maca. Quando abriu os olhos se viu dentro de uma ambulância ao lado do padre Antônio ainda desmaiado.
Sergio era enfermeiro na Santa Casa há três anos e nunca tinha levado um padre em sua ambulância. Dessa vez levava dois. Ele que tinha orgulho de ser pouco crente numa terra onde o Padre Cícero rivalizava em poder com o próprio Deus. Parou a ambulância na porta do hospital e levou para dentro primeiro o padre que estava pior. O que tinha o rosto todo inchado e respiração borbulhante de quem tem o pulmão perfurado. Quando voltou o que viu fez sua vida mudar para sempre. Virou devoto file do Padre Cícero e passou a freqüentar a igreja diariamente. Na maca onde estava o outro padre agora havia uma batina vazia. Na mesma posição em que o padre estava deitado. Para Sergio era obvio que o padre havia morrido e seu corpo tinha sido levado pelos anjos. Mas a realidade era muito diferente e ele nunca ficou sabendo.
O Carcará viu o enfermeiro sair com o padre Antônio e se levantou. Tirou a batina e a jogou em cima da maca sem perceber que ela acidentalmente caiu como se ele tivesse evaporado de dentro dela. Saiu da ambulância se apoiando na bengala e só então se deu conta que aquela tinha sido sua primeira viagem num automóvel. Andou por duas quadras e parou para respirar olhando o céu calculando as horas. Faltava pouco para as dez e ele tomou o primeiro bonde que passou. Ele só pensava em sair daquele lugar de concreto e voltar para seu mundo.
O capitão Ricardo correu para o fundo da igreja, de arma em punho, respondendo ao chamado de um de seus homens. O quarto pequeno cheirava ao álcool do vinho derramado no chão. A grande cruz na parede sustentava um Cristo alheio ao fato de estar velando um corpo de cabeça roxa. No canto do quarto, rezando apavorado, estava o padre que havia corrido até a delegacia e chamado a polícia.
- O padre disse que esse é o quarto do padre Antônio e esse é o padre Bento...
Ricardo bloqueou o resto da informação do policial e olhou em volta juntando os cacos de pistas que tinha no quarto. Reparou que no vinho caído o chão tinha um pouco de sangue e constatou que não podia ser do padre morto, pois esse tinha sido estrangulado e não sangrava. Puxou rapidamente a manta que cobria o corpo do padre e encontrou-o de calças e sapatos. Nesse momento tudo se encaixou e ele viu a possibilidade de provar seu valor escorrendo pelas mãos. Não falou com ninguém, apenas saiu correndo e pulou no Ford novo que seu pai havia doado para a polícia. Disparou a toda velocidade para o hospital sabendo que suas chances eram muito remotas.
O bonde para a central de trens passava pela Avenida Dom Pedro antes de entrar na Rua Vila Rica. E por uma esquina o Carcará não fugiu tranquilamente. Pois naquele ponto o carro da polícia passou. Ele viu o capitão e percebeu que tinha sido descoberto. O supercílio cortado ainda sangrava e sua camisa estava cheia de vinho. Os outros passageiros do bonde podiam pensar que ele era um bêbado voltando duma briga, mas os olhos do policial não diziam isso. Com o chapéu no colo ele olhou para trás e viu o carro da polícia começando a fazer a volta com os pneus gritando e deu sinal para o bonde parar. Não ia dar pra esperar. Então ele enterrou o chapéu na cabeça e pulo do bonde em movimento.Teve que segurar todo peso na perna esquerda enquanto se equilibrava na bengala. O carro do policial vinha em alta velocidade e sem pensar ele entrou no restaurante em frente. Passou correndo pela cozinha movimentada e saiu pelo fundo. Mas antes da porta fechar ele ouviu os tiros. As duas balas passaram rente o bastante para ele sentir o vento delas antes de estraçalharem parte da porta de madeira.
Ricardo não estava preocupado com civis ou qualquer outra coisa. Queria apenas pegar o desgraçado que era seu pote de ouro. Sua publicidade garantida nas primeiras páginas dos jornais da cidade e talvez do país. Os dois tiros não acertaram o estranho com chapéu diferente. Só serviram para alvoroçar o dono do restaurante e seus dois ajudantes que tentaram sair pela mesma porta por onde Ricardo estava entrando. A confusão custou preciosos segundos ao capitão que quando chegou à rua de trás encontrou-a vazia. Sem saber para que lado o estranho correu, o capitão decidiu voltar ao carro e circular pelas ruas. O que ele não sabia era que o Carcará não podia correr e por isso estava escondido atrás do lixo do restaurante.
Sem se mover José observou o policial parar na rua e olhar para os lados com expressão desolada. Ele abriu o tambor de sua arma e olhou dentro enquanto procurava com a mão algo dentro de um dos bolços na perna da calça. Pelo que José pode observar ele não achou o que procurava, fechou o tambor do 38 e voltou para dentro do restaurante. O Carcará contou até cem três vezes antes de sair de traz do lixo que cheirava a urina e vômito. Seu joelho doía muito e não sabia por quais ruas era mais seguro seguir. Foi então que ouviu o apito de um trem e começou a seguiu a direção do som. Andando pelas ruas sujas e escuras o Carcará chegou a sentir o sabor da liberdade. Só parou quando chegou ao grande pátio da estação. Vários trens parados e muitos outros chegando ou saindo de um enorme campo aberto. Poderia ser visto facilmente por qualquer um, mas era o único caminho para a liberdade. Saiu para campo aberto e quando estava passando pelos trens escutou mais tiros. Sem pensar duas vezes ele pulou no chão e rolou para baixo de um trem parado. O primeiro tiro acertou as pedras no chão e o segundo pegou no vagão de carga de um trem fazendo o som ecoar e despertando a atenção de todos na estação.
O capitão sorria feliz por saber que a sorte estava ao seu lado. Depois que cruzou com o assassino no bonde ele foi esperto o suficiente para saber que o único jeito de sair da cidade era pela estação de trem. E naquele momento descobriu que o estranho tinha um problema na perna e não podia correr apoiando-se na bengala. Os dois tiros foram só para alertar, agora ele buscava entre os trens o homem que era a chave de sua fama. Quando viu o chapéu pontudo ele levantou seu 38 de seis tiros e esperou. O trem que ele estava encostado se moveu fazendo ele perder a mira no instante em que o assassino entrou em seu campo de vista. Por isso a primeira bala passou alto acima da cabeça do estranho e a segunda acertou a parede da estação.
Agora alerta, o Carcará voltou para trás depois do segundo tiro e movendo-se rapidamente ele entrou no turbilhão de pessoas que passavam assustadas com os tiros. Tirou o chapéu e se curvou para não chamar atenção com sua altura e viu a porta de um vagão aberto com um funcionário da estação prestes a fechá-lo. Pediu desculpas e subiu rapidamente sem olhar para trás.
Suado e preocupado Ricardo olhava para as pessoas e virava o revolver sem saber para onde apontar. Estava fervendo de raiva e entrou no meio da multidão vasculhando entre as pessoas. Viu apenas a ponta da bengala saindo da porta do vagão e gritou para o homem que fechava a porta. Empurrou todos para os lados e entrou no vagão.
José olhava em torno procurando um lugar para sentar quando ouviu a gritaria do lado de fora. Com o chapéu na mão ele se sentou ao lado da janela e ficou imóvel.
Respirando ofegante o capitão olhou em volta a procura de seu homem e mais uma vez foi a bengala que o salvou. Sentado ao lado da janela, com a bengala de lado, estava o assassino. Sacou a arma e aproximou-se devagar. Ele estava de costas e não tinha para onde fugir.
O Carcará apertava o joelho com força para tentar fazer para a dor quando ouviu o apito de seu trem. Sabia que faltava pouco e se deu o direito de relaxar.
Ricardo chegou bem perto e sem conseguir se conter mais gritou:
- Peguei você, desgraçado! – depois continuou num tom normal e sorrindo saboreando a vitória. – Levanta devagar e com as mãos pra cima.
O estranho levantou tremendo e seus braços quase não paravam no alto.
Quando José escutou o policial gritar não pode conter o sorriso.
Pela janela ele viu um velho tremendo com as mãos para cima olhando para o estupefato policial. No trem ao lado.
Ricardo se recuperou rápido. Olhou em volta e viu o Carcará no outro trem. Quando os olhos se cruzaram José sem pensar jogou a cabeça para trás procurando a proteção da coluna entre as janelas. O capitão virou a arma e apertou o gatilho. O estalido seco da arma vazia não espantou José, mas encarar uma arma mesmo descarregada era algo que sempre era bom evitar. Contar balas fazia parte da vida de José e quando ele olhou para Ricardo novamente encontrou o policial espantado abrindo o tambor da arma. Mas o trem de José começou a andar e Ricardo percebeu que não teria tempo de recarregar. O capitão foi até a janela e gritou para o Carcará:
- Você é meu, seu desgraçado. Eu ainda te pego!
José olhou pela janela o jovem policial e sentiu o frio na espinha que só sente quem encontra seu nêmese. Sem gritar, mas alto o suficiente para ele ouvir, o Caracará respondeu:
- Pode ser, pois eu vô voltar. E vai ser pra matar o governador João Ribeiro!
O trem se distanciava, mas José pode ver a cara de espanto do policial. Como não esperava resposta ele se virou e sentou-se cansado. Mas pode ouvir claramente a voz cheia de ódio do capitão Ricardo.
- Eu vou esperar... Eu vou esperar...
A polícia não encontrou nem sinal do estranho quando o trem parou na outra estação. E desse dia em diante o capitão Ricardo passou a ser uma pessoa mais fria e cruel. Parou com os exercícios e seu corpo foi perdendo os músculos fazendo ele voltar a ser magro e sem graça. Os cabelos castanhos ondulados perderam a força e deixaram uma calvície precoce no amargo capitão. Mas para um homem que nunca teve que lutar por nada na vida, um objetivo pode facilmente virar uma obsessão.
FIM
Valhalla Produções – Todos direitos reservados. Madrid 6 de Junho de 2006
A próxima história vai ser A História. Vamos saber mais sobre o passado desse grande homem e algumas outras coisas. Por ser uma história muito importante eu vou precisar de um tempo maior para escrever, por isso ela vai demorar mais que as (teóricas) semanas que levam as outras. Tenham paciência, por favor, tenho certeza que vocês não se arrependerão! Deixem seus comentários e espero encontrar sugestões e criticas por aqui.
O Conteúdo Exclusivo esta demorando um pouco por motivos técnicos, mas antes da próxima publicação espero estar com tudo em ordem.
E temos uma grande surpresa essa semana. A criação passo a passo de uma capa.
O Grande Júlio Brilha nos apresenta como criou essa maravilhosa obra de arte.
Primeira Parte: Criação do Thumbnail (esboço pequeno) onde são colocadas no papel as idéias para a capa.
Segunda Parte: Esboço grande, onde são resolvidos os problemas de perspectiva e proporção.
Terceira Parte: Capa finalizada, com arte final digital e montada com caracteres e etc.
Reparem no efeito da luz do Sol entrando pela porta e pelo vitral... o cara é bom heim!
Obrigado a todos e até a próxima!
9-6-06
Olá, gostaria de fazer um pedido a todos que se interessam pelo Carcará.
Estou sem desenhistas para as próximas capas e seria injusto pedir mais uma vez ao Júlio Brilha, já que ele fez alem de 2 capas, vários materiais para o Conteúdo Exclusivo que vocês vão receber (quando deixarem o e-mail no comentário é claro...).
Por tanto, gostaria que os artistas de plantão contribuíssem para o projeto. Pode ser desenho a lápis, 3D, Pintura, gravura, escultura... Qualquer coisa que possa dar forma ou idéia ao personagem. Não precisa ser formato quadrinho nem nada. Basta a vontade e a intenção.
Agradeço mais uma vez aos leitores assíduos (Fabiano, Fernanda, Valter, etc...) e espero comentários de todos!!!
Daniel Garcia
2:09 PM 4 Comentários