04 - Espírito Santo, Amém (Parte 1)
A fraca luz do sol matutino entrava pelo vitral em cima da grande porta e revelava as partículas de poeira que dançavam no ambiente escuro da pequena igreja. A grande cruz de madeira em cima do altar sustentava um Jesus magro com os olhos bondosos mirando José de Arimatéia. Nas mãos fortes do Carcará estava o pescoço do Padre Antônio que tentava respirar desesperadamente. Tinha uma ou duas costelas quebradas e podia sentir os dentes que lhe sobravam frouxos na boca. Seu rosto era uma massa de sangue inchada por onde escorriam as lagrimas de quem se vê diante da morte.
Ao lado deles estava o Padre Bento. Ajoelhado ele implorava para José soltar seu companheiro. Do lado de fora da porta veio um grito forte e autoritário:
- Vocês têm meia hora! Depois nós entramos.
Então ficou só o silêncio sinistro do lado de fora, pois a polícia já tinha interrompido o trânsito de pedestres na rua e todos os quase trinta policias estavam tensos e quietos.
- Você não pode matar ele. Pelo amor de Deus, homem. Se você fizer isso vai ser preso pelo resto da vida. – O padre Bento argumentava com José desesperadamente - Você não tem família? Não tem ninguém para cuidar?
José olhou para o padre e o que passou pela sua cabeça não foi sua família, mas sim o único ser vivo que dependia dele.
José passava a mão pelo lombo do Burro e olhava para o pequeno estábulo de madeira. O velho esperava o dinheiro do pagamento com mãos enrugadas e veias saltadas. José deixou o dinheiro com o velho e ameaçou dizer algo para o Burro. Mas as últimas demonstrações de afeto em sua vida ficavam num passado distante e enterrado. Por isso ele se sentiu mais à vontade batendo delicadamente na grande cabeça do eqüino e dizendo:
- Tudo bem, Burro. Eu volto logo.
Pegou o trem para Fortaleza apenas meia-hora depois e ficou olhando aquela terra seca dar lugar, as ruas de paralelepípedo e as construções de três e quatro andares. Olhava a tudo com olhos de criança. Um mundo tão diferente do seu, que ele temia não entender sua língua ou seus costumes.
Desceu na central perto da Praça da Independência. O vento forte trazia o cheiro de comida das barracas da Avenida Juscelino e ameaçavam levar seu estranho chapéu. De cara amarrada ele enterrou o chapéu na cabeça e começou a andar. Levava uma sacola de couro nas costas e a todo momento passava a mão pela coxa a procura do coldre onde suas armas sempre estavam. Mas agora ele encontrava um espaço vazio que o assustava antes dele lembrar que os havia enterrado. Estavam protegidos abaixo de uma pequena árvore ressecada não muito longe da pequena cidade onde estava o Burro. Na capital não se podia andar com armas a mostra, havia lei por esses lados. Infelizmente, pois ficar desarmado era um sentimento novo para ele. Depois de perguntar a alguns moradores que incrivelmente falavam sua língua, ele viu a igreja de São Sebastião. Não era grande e estava bem afastada do centro da cidade, mas ainda assim impressionava com sua arquitetura de influência francesa com altas colunas e figuras assustadoras. Um grande muro cercava as laterais da igreja e a placa enorme indicava que o lugar era também um orfanato público.
José foi recebido pelo padre Antônio, de cara amarrada olhando-o de cima abaixo reparando em suas roupas castigadas e sua expressão cansada.
- Olhe, passe fora. Aqui num é lugar pra mendigar! – foi dizendo o padre enquanto fechava a porta.
O pé esquerdo de José bloqueou a porta antes dela se fechar e o padre empurrou os pequenos óculos redondos com o dedo olhando para o Carcará com ar insultado.
- Perdão Seu padre, mas o senhor deve estar me confundindo com alguém. Meu nome é José de Arimatéia e eu sou fazendeiro no sertão. Tenho uns par de terra e vim pra capital ver a inauguração da Matriz. – José sorria, segurava seu chapéu na frente do peito enquanto encarava o padre com olhos firmes.
A expressão do padre Antônio se amenizou e ele abriu a porta com um grande sorriso.
- E o que nossa humilde paróquia pode fazer pelo nobre senhor?
José entrou na sombra fresca da igreja e olhou em volta assombrado pela beleza das esculturas e desenhos.
- Vou ficar uns três dias e gostaria de me instalar na igreja, se não fosse muito incômodo. Sou uma pessoa muito religiosa e gostaria de ficar perto de Deus. – José remexeu nos bolsos e tirou um maço gordo de notas enroladas num elástico e continuou – Gostaria de pagar pela estadia e pelos meus gastos... – deixou o fim da frase no ar e levantou as notas na direção do padre.
O Padre Antônio, que antes de um homem de Deus era um homem de ambição, olhou as notas salivando. Virou o rosto vermelho de sol para o outro lado e disse com voz rancorosa e decorada.
- A casa de Deus tem as portas abertas e não podemos aceitar pagamentos por isso.
José mancou até o altar onde havia a caixa de doações e enfiou todo dinheiro lá dentro sem falar nada. O Padre Antônio sorriu de prazer e acompanhou o fazendeiro até um pequeno e simples quarto de visitas, onde José passou o resto da tarde e dormiu um sono agitado.
Foi acordado por estalidos altos e estridentes que ecoavam pelos corredores do orfanato. Vestiu a calça e saiu de peito nu se apoiando na bengala. Perseguiu o som até chegar num pátio de pedra com vitrais no teto e descobriu o que era o som.
Com os botões da batina abertos no peito, o Padre Antônio suava com o esforço. Os óculos escorregavam pelo nariz encharcado de suor e os ralos cabelos castanhos estavam grudados na testa. Ele parecia cansado e ainda assim não parava. Levantava o chicote e descia com toda força nas costas de um garoto com não mais que quinze anos. José olhava para as costas ensangüentadas do garoto e não acreditava. Ele levantou a bengala e se preparou para entrar no salão, quando o garoto caiu desmaiado. O Padre Antônio murmurou algo e depois de fazer o sinal da cruz saiu da sala cansado. Logo em seguida entrou um outro padre. Aparentava uns cinqüenta anos, magro com uma careca avantajada e olhar bondoso. Ele pegou o garoto no colo e o Carcará pode ver as lagrimas no rosto do homem. De dentro da batina surgiu um pano úmido que ele usou para limpara as feridas nas costas do garoto. De uma pequena bolsa ele tirou uma pasta verde com cheiro forte e passou nas costas do garoto que começava a acordar. Pedindo para que ele ficasse quieto o padre levantou o garoto e segurava ele nos ombros quando José entrou. O padre se assustou e recuou. José não falou nada, foi até o garoto e segurou o braço dele ajudando o padre a leva-lo para a cama.
Quando o garoto já estava deitado e eles do lado de fora do quarto que parecia uma enfermaria, eles se apresentaram.
- Ocê deve ser o tal fazendeiro num é? – disse o padre com voz cansada.
- José de Arimatéia ao seu dispor, padre.
- Sou o padre Bento e... Bem gostaria de pedir desculpas pelo que ocê viu aqui. O padre Antônio é um bom homem, mas tem um jeito diferente de pregar a bondade. – explicou o padre enquanto limpava o suor do rosto com um lenço. - Todos sabemos que os caminhos de Deus são misteriosos e ele age de diferentes formas nas pessoas.
José olhou bem para o padre e depois virou o rosto para onde o garoto tinha caído. No chão podia se ver pequenas poças de sangue coagulando entre as pedras.
- Vou lhe falar uma coisa padre. Eu já vi muita coisa nesse mundo e tenho certeza que isso não é obra de Deus. Espero que o padre Antônio encontre logo a trilha de Deus, se não... – José saiu sem terminar a frase que ficou pairando no ar como um fantasma.
José passou o dia caminhando pela cidade e voltou cansando pouco antes do horário da janta. Estava na grande mesa no refeitório comendo com todos os padres que cuidavam de quase quinze crianças de diversas idades. Eram seis padres velhos e cansados e José procurou com os olhos as crianças mas não viu sinal delas em parte alguma. Estava prestes a perguntar ao padre Bento quando uma porta atrás dele se abriu. O brilho alaranjado do sol da tarde entrou no salão e José viu o garoto que foi chicoteado entrar com passos lentos. Todos pararam de falar e olhavam para o Padre Antônio que ia ficando mais e mais vermelho. O garoto parou em frente dele e o encarou. Foram os olhos do garoto que chamaram atenção de José. Eram espertos e ameaçadores. Cheios de ódio e rancor, mas com um brilho que nunca iria apagar, nem com todas as chicotadas do mundo. Ele encarou o Padre até esse se incomodar.
- O que ocê quer aqui mulequi?
Com voz fraca mas petulante o garoto respondeu sem parar de olhar fundo nos olhos do padre.
- Vim pedi mais cumida pro Pedrinho purque ele ta muito doente e precisa comer bem.
José seguiu o olhar do garoto e pela fresta da uma porta entreaberta ele viu algumas crianças no chão catando restos de comida e levando a boca.
O Padre Antônio nem respondeu, virou para outro padre e voltou a falar das obras na cidade. Os olhos do garoto faiscavam e José sabia que ele ia fazer algo estúpido, mas não houve tempo para impedir. O garoto pegou um grande pedaço de pão do prato do padre Antônio e saiu andando. O padre Antônio se levantou com expressão colérica e gritava com o garoto que não parava. Com a colher de madeira na mão o padre correu levantando a batina e foi até o garoto. Acertou-o na cabeça com força e um jorro de sangue escapou pelos cabelos do garoto que caiu no chão já inconsciente. O pão rolou para longe ficando apenas a alguns metros de onde estavam as outras crianças. O padre Antônio jogou a colher no chão e enquanto se dirigia para fora da cozinha, pisou no pão esmigalhando-o por completo. José se levantou calmamente e pegou o garfo com a mão esquerda e saiu de trás da mesa olhando fixo para a porta por onde havia saído o padre Antônio. Sentiu alguém segurar seu braço e viu o padre Bento com olhos suplicantes. Puxou o braço de Jose até a cadeira e mostrou os padres atentos aos seus movimentos. José soltou o garfo e se dirigiu até o garoto no chão. O padre Bento estava ao seu lado e o ajudou a levantar o garoto e senta-lo no grande banco. Enquanto José pegava água para o garoto ele viu o padre Bento pegar seu prato e ir até onde estavam as crianças. Deixou com elas sua comida e retornou ao salão quando o garoto recobrava os sentidos.
- Qual seu nome garoto? – disse o Carcará.
Ele levantou os olhos desafiadores e mirou José por um bom tempo.
- Rafael, senhor. – foi a resposta seca.
José entregou o copo de água ao garoto e virou as costas saindo da sala.
A noite foi longa e José não conseguiu dormir até que os raios de sol surgiram pelas frestas da janela fechada. Junto com o sol veio o som forte das chicotadas novamente.
Dessa vez José se vestiu, arrumou suas roupas na sacola, colocou seu chapéu e saiu apoiando-se na bengala com um olhar assustador.
Ele se aproximava do salão onde o garoto era chicoteado quando surgiu o padre Bento em seu caminho.
- Tenha piedade! Ele é um homem de Deus...
José nem mesmo olhou para ele. Apenas tirou-o de sua frente empurrando-o com a mão esquerda e entrou no salão.
O padre Antônio estava com a batina encharcada de suor e sorria de prazer. O garoto já estava desmaiado e ele ainda descia o chicote com força acertando todo o corpo nu do pobre garoto. Quando viu José não pode notar a expressão de seu olhar, por isso sorriu.
- Oh, Nobre senhor. Desculpe se o acordei, mas a mão de Deus precisa descer sobre esse garoto que caminha para o lado errado e...
Então o Carcará levantou o braço e desferiu um violento golpe no rosto do padre. Dois dentes caíram de sua boca antes dele desmoronar no chão. Olhando para o Carcará totalmente surpreso o padre Antônio tentou se levantar. Sentiu então a bota de José chocando-se com toda força contra seu estomago e rolou para o lado vomitando em sua batina. José segurou ele pelo colarinho e com um soco forte jogou-o contra a porta que levava ao altar da igreja. A porta se abriu e o padre Antônio tentou fugir engatinhando e chorando enquanto o padre Bento segurava o braço do Carcará.
- Não! Você não pode fazer isso. Por mais que ele tenha errado, isso não é certo... – o padre Bento parou de falar quando toda a fúria dos olhos de José se viraram para ele.
Deu um passo para trás e ficou implorando a distância para que José parasse enquanto o Carcará golpeava seguidamente o padre Antônio.
Ele era metódico. Não queria que o padre desmaiasse antes de faze-lo sofrer bastante e já levava mais de vinte minutos batendo nele quando escutou uma forte batida na porta de entrada da igreja.
- Abram essa porta! É a policia!
José olhou para o padre Bento que foi correndo até a porta. Sem abri-la ele gritou para o policial:
- Aqui é o padre Bento, estou com um senhor que vai se entregar daqui a pouco.
Ricardo olhou para o céu e tentou calcular as horas. Nunca gostou de usar relógio e tampouco conseguia descobrir as horas pelo sol, assim ele gritou para o padre do lado de dentro da igreja:
- Vocês tem meia hora! Depois nós entramos.
Então ele se afastou da porta e chegou perto de Carlos, seu assistente.
- Que horas são?
- Sete e meia – disse Carlos sem olhar no relógio.
- Avise a todos que vamos entrar em dez minutos. – resmungou o capitão Ricardo enquanto passava a mão pelo rosto de barba mal feita.
- Mas o senhor acabou de dizer... – Questionou Carlos sem muito sucesso.
- O que eu digo ou deixo de dizer é assunto meu. Agora bote esses homens pra trabalhar que eu tenho que ver meu pai ainda pela manhã.
Só a simples menção do pai fazia as coisas acontecerem. Filho de um dos homens mais ricos de Fortaleza, Ricardo havia estudado direito, mas gostava da vida emocionante na policia. Por isso o pai havia “conseguido” o posto de capitão para o filho. E quando aquele padre chegou à delegacia dizendo que um estranho ia matar o padre Antônio, ele viu uma oportunidade de se destacar sem a influência do pai.
Os homens demoraram um pouco mais de dez minutos para se aprontarem e Ricardo do alto de todos os seus trinta anos de vida olhou para a porta da igreja e deu o comando.
- Agora!
E assim todos os policiais seguiram o capitão com seu uniforme bem passado e corpo musculoso. Mas quando a porta se abriu não era o que o capitão esperava encontrar. Dois padres estavam caídos no chão com os rostos ensangüentados e nem sinal do estranho. Passou a mão pelos longos cabelos castanhos e mandou os homens vasculharem cada canto. Chamou a ambulância para a frente da igreja e os médicos levaram os dois padres feridos, deixando Ricardo sozinho.
- Onde foi parar o tal estranho? – se perguntava o capitão Ricardo.
Continua...
Valhalla Produções – Todos direitos reservados. Madrid 25 de Maio de 2006
Espero não demorar tanto para postar a continuação. E gostaria de pedir mais uma vez aos que entram no blog e lêem as historias do Carcará, que deixem seus comentários. Esse é o único jeito de eu saber qual está sendo a reação aí no Brasil. Mesmo com o atraso, estou mandando por e-mail o Conteúdo Exclusivo da semana passada para aqueles que deixaram os comentários na ultima edição. E continua o mesmo sistema. Deixe seu e-mail e receba coisas bem interessantes sobre o personagem mais querido do sertão!!!
Aqui você pode conferir a capa dessa edição no lápis de Carlos Furuzono e arte final do Alexandre.
Obrigado a todos e até a próxima!
Aqui você pode conferir a capa dessa edição no lápis de Carlos Furuzono e arte final do Alexandre.
Obrigado a todos e até a próxima!
Daniel Garcia
5:31 PM 14 Comentários